Viva a sua vida: O ideal pode não ser ideal para você
Vida vivida ou vida copiada
Quando eu era pequeno passava bastante tempo assistindo àqueles documentários sobre vida selvagem.
Me impressionava o fato de uma girafa nascer grande e já saber o que fazer assim que “caía” de sua mãe.
Em pouco tempo ela já era girafa, já andava igual girafa, comia igual girafa e sabia o que fazer. Copiava as outras girafas, de certo modo, mas já sabia o que fazer.
Nós, por outro lado, nascemos bebezinhos frágeis. Precisamos que alguém faça tudo por nós.
Somos seres imitativos.
Um bebezinho começa, via de regra, imitando os pais. É para ser assim. Sem conseguir raciocinar muito ou entender minimamente o mundo o bebe vê tudo como ameaça e nos pais as pessoas que podem mantê-lo vivo e protegido.
É o que ele busca em um primeiro momento.
É dessa segurança que vai surgir posteriormente um desejo de imitação. o famoso “quando eu for grande….” é um desejo de ser como alguém, como a referência.
E esse é mesmo o nosso movimento. Ele não muda depois, na fase adulta. Queremos e precisamos imitar pessoas melhores do que nós, mais maduras, pessoas que admiramos, que têm domínios maiores que os nossos, que sejam quem queremos ser.
Esse é o processo desejado e natural.
Mas podem surgir alguns movimentos perigosos nesse meio do caminho, mas queria pontuar 2 muito comuns: 1) um desejo de invalidação do modelo ou da autoridade; ou 2) uma imitação neurotizante. E quanto antes identificamos isso, mais rápido podemos nos emendar.
É natural que ao começar a imitar alguém a coisa fique um pouco caricata. Começamos por incluir no nosso jeito aquelas características mais superficiais a fim de chegar a uma intimidade com a pessoa imitada e poder copiar aquilo que ela conquistou.
Você já deve ter reparado características como mudar a forma de falar, incluindo palavras do vocabulário muito própria daquela pessoa que quer imitar e entendendo as palavras pelos símbolos que aquela pessoa usa para se expressar; as roupas que usa, colocando roupas que queiram transmitir por fora aquilo que você quer que esteja dentro, vemos em grupos como jogadores de basquete ou futebol, grupos de skate, hip hop.
Esses dias mesmo passei em frente a uma sorveteria aqui na cidade e fiquei observando uma cena: 6 adolescentes que deviam ter seus 14 anos, todas com a mesma blusa vermelha e calça ou saia jeans, um penteado muito parecido, que era até difícil identificar quem era quem ali.
Vemos adultos indo a academia, usando suplementos, acordando as 5 da manhã, fumando charutos. São infindáveis os exemplos de pessoas tentando copiar outras e é assim que começa mesmo, e precisa evoluir, ganhar intimidade e fazer adaptações.
Aqui entra esse perigo número 2. A falta de reflexão e a falta de adaptação decorrente da falta de intimidade com o modelo.
Copiar alguém muito próximo a você pode funcionar muito bem quando se trata de pais amorosos e maduros ou de bons amigos que verdadeiramente querem o seu bem, em vários outros casos serão pessoas que se aproveitarão, em muitos casos, da sua boa intenção e disposição.
Por outro lado, ao imitar pessoas mais distantes temos o benefício de um distanciamento saudável, mas perdemos a intimidade que permite entender melhor as adaptações que precisamos fazer com o tempo.
Então começamos a enfiar um modelo pronto de vida em uma vida que precisava ainda ser moldada. Ai surgem ideias do tipo: a mulher vai ficar em casa cuidando das crianças enquanto o homem vai trabalhar e ser o “provedor” da casa.
Não fazem nem ideia do que seja isso, não se consultaram como casal e chefes de família para refletir e entender se esse era o melhor arranjo, não avaliaram se possuem as forças necessárias para isso acontecer. Mas decidiram imitar alguém bom e que fariam isso e teriam 5 filhos.
É uma Imitação Neurotizante. Tomam como verdade e como melhor forma de viver a vida de certa pessoa e só podem ser felizes se aquilo se concretizar. Pode funcionar? É claro que pode! Mas a probabilidade é que dê merda!
Nada daquilo que eles decidiram é por si ruim, pelo contrário, são boas ideias. Mas a realidade é quem impera. Se eu não tenho as forças necessárias para ficar em casa com as crianças eu preciso me formar antes, ou no processo, e preciso assumir essa responsabilidade com amor, caso contrário vou fazer mais mal do que bem.
O tal “provedor” também vai precisar entender que prover não é jogar dinheiro na mesa e descansar no sofá, é prover, trabalhar, escutar as reclamações e demandas, estar presente com os filhos, se desgastar, orientar, fazer planos juntos, projetar e planilhar pra fazer acontecer, compartilhar o que aflige e buscar resolver.
Se não for um plano conjunto do casal a ideia inicial, aquela imitação não será uma vida vivida, será apenas uma vida copiada e aos moldes dos produtos falsificados que escrevem até a marca errada.
Vai soar falso de um lado e desgastante do outro até que não poderá ser sustentado e o que acontece em muitos casos, novos modelos serão procurados e modelados aos mesmos modos, sem assumir responsabilidades pelas escolhas que fizeram anteriormente.
Eu já vi isso diversas vezes em terapia.
Essa falta de honestidade e de assumir responsabilidades, decorrentes da imaturidade, é claro, nos leva também ao problema 1, que é a invalidação do modelo.
“Essa pessoa não pode ser tão perfeita assim. Ela deve ter alguma coisa que não mostra”. É claro que tem, é claro que não mostra e é claro que isso não invalida nada do que ela mostra ou faz.
Mas esse movimento é comum e muito próprio do brasileiro. Encontrar uma característica, internalizar ela com um pensamento, alimentar uma emoção e desferir um comportamento de rejeição. Vi acontecer diversas vezes com excelentes professores meus.
O homem está dando uma excelente aula, então um dos alunos solta “Ensina sobre amadurecimento e não pe capaz de parar de fumar”.
Percebe, ninguém perguntou se ele quer parar de fumar, mas aquilo ali para o aluno que precisa invalidar o sujeito é: “Se ele tem autocontrole, porque não faz uma coisa que EU acho que seria bom?” aquilo é suficiente para gerar nele esse pensamento e mexer com suas emoções a ponto de fazê-lo falar ou digitar, deixando de imitar alguém que poderia trazer inúmeros benefícios para a vida dele.
O ponto é. Somos seres imitativos e o processo de imitação é um processo. Não acertamos de primeira e não nos tornaremos cópias exatas da pessoa imitada. Nossos filhos não se tornam cópias nossas, mesmo com todo o amor e cuidado para que aprendam as virtudes que temos mais desenvolvidas.
Precisamos nos adaptar e isso acontecerá com tempo e intensidade.
Se tento fazer tudo a minha maneira, do meu jeito, criticando tudo e criando um método próprio, as minhas melhores chances é que eu faça as coisas meio que ao modo girafa, uma coisa meio animalesca, uma sobrevivência que em poucos passos vai buscar o prazer e as motivações mais baixas.
Sem referências começamos a ouvir a nossa voz interior, aquela egoísta que busca todos os meios para si e pouquíssimos meios para melhorar.
Preciso do outro para ser quem só eu posso ser
Não somos autossuficientes. Alguém fez o pão que você comeu de manhã, alguém coloca gasolina no seu carro, alguém limpou o escritório que você trabalha, alguém criou a empresa que você trabalha e arriscou o próprio patrimônio ou contraiu dívidas para isso.
Desde quando era bebezinho é dependente. Agora já adulto tem diversas capacidades, mas continua dependente. Isso é bom.
Pessoas também dependem daquilo que você faz hoje. Dá para tornar a vida dos outros a nossa volta mais agradável também.
É daí que começamos a perceber que a vida não nos pede para fazer o que temos desejo. Desejo por desejo ficamos deitados até as 10h, comemos um bolo com cobertura de chocolate no sofá assistindo série e trabalhamos um pouquinho, em alguma coisa tranquila e que pague bem, só para não nos sentir mal no final do dia.
Eu só posso me tornar aquele que devo ser se eu cumprir com as responsabilidades daqueles SIMs que eu dei ao longo da vida.
Responsabilidade é capacidade de responder. Diante das perguntas que a vida nos faz, diante das pessoas que precisam de mim, das circunstâncias que se apresentam pedindo resposta:
Como eu respondo?
Quais habilidades preciso desenvolver para responder a isso da melhor maneira possível?
Onde preciso estar para cumprir melhor esse papel?
Como e por quanto tempo preciso realizar isso?
Qual a intensidade que deve ser aplicada nessa resposta?
São essas perguntas que vão nos moldando. E são as pessoas que aparecem nesse caminho que perguntam e que respondem várias delas. Somos seres imitativos e é nessa imitação que vamos respondendo a essas perguntas.
Uma coisa é muito clara. Essas são as SUAS perguntas.
Cada um vive para responder um conjunto muito próprio de perguntas e é isso que soluciona aqueles 2 problemas que levantamos anteriormente.
A autoexigência daqueles que se impõem uma imitação neurotizante é boa porque te mantém em movimento, te chama a mudar, te coloca para frente, de certo modo. O ponto é que isso precisa ser uma coisa que você escolheu fazer.
Olhar para aquela circunstância e dizer: Essa é a vida que eu quero e é isso que escolho, com todas as consequências e vou me formar e me fortalecer para fazer isso acontecer.
Essa diferença entre o que você é e o que deve ser será sempre seu combustível.
Se você olha para isso e fala que deveria, mas não é aquilo que a vida te pede para ser, algo precisa ser corrigido nessa rota.
Existe uma tensão necessária.
Ela nasce dessa necessidade de ser algo que você ainda não é, não da necessidade de ser alguém que você não é. A diferença pode parecer sutil, mas é enorme.
A primeira será uma tensão que você precisará administrar para que a corda não estoure, a outra você vai puxar torcendo para que ela não estoure e infelizmente, em algum momento da vida, em muitos casos já no leito de morte, ela vai estourar.
Aproveitar esse caminho, tensionar e puxar essa corda a medida que você vai ficando mais forte é a forma de encurtar esse espaço.
Perceber ess diferença e responder essas perguntas é das maiores delícias da vida.
Não é para ser desgastante e exaustivo, é para ser intenso, com a tensão bem calibrada. É assim que nos tornamos quem devemos de fato ser.
O cotidiano e a beleza da rotina
A vida é, antes de tudo, a repetição de pequenas tarefas que, uma após a outra, vão tecendo os fios da nossa existência. Essas cordas com as tensões corretas, que vamos ajustando pouco a pouco.
E nessa rotina ordinária, que ninguém vê, que ninguém elogia e que aparentemente nem tem grande valor, que vemos o EXTRAordinário. É ai que encontramos o ritmo, que ajustamos o passo, que melhoramos a postura e evoluímos a passada, que tensionamos a corda não só para produzir som, mas para encontrar a nota ideal.
A rotina é o que nos permite pensar menos nas atividades em si e mais naquelas mais importantes. A faxina da casa que fica suja logo após terminarmos de varrer o último cômodo, a louça que se acumula na pia uma refeição depois que arrumamos tudo, as roupas que se acumulam no cesto 2 dias depois que lavamos tudo.
Se a nossa atenção estiver nessas atividades em si será uma rotina maçante e exaustiva, mas se estiver naquilo que nos tornamos enquanto completamos cada uma delas, no que podemos fazer após dominar cada uma delas, ai sim, vamos nos tornando aqueles que devemos ser, e melhor, aqueles que só cada um de nós pode ser.
Você começa copiando alguém, ganha domínio naquela atividade e depois ganha um domínio próprio, um jeito seu de fazer, nada original, mas totalmente seu.
A nossa felicidade está em se instalar na realidade
Enjoar da rotina normalmente aponta para imaturidade, preguiça e egoísmo, muito mais do que falta de sentido. Encontramos sentido dominando aquelas obrigações, aquelas responsabilidades que decidimos assumir com amor.
Não somos um cardápio de sorvetes que precisa ser alterado de tempos em tempos para dar um ar mais palatável aos consumidores.
Não tem ninguém consumindo nossa vida, nós é que devemos nos consumir, com intensidade, com vontade, para encontrarmos uma vida cheia de sentido.
Não um sentido hollywoodiano, cheio de fogos de artifício, viagens de jatinho e fotos instagramáveis, nada disso é necessário e não são esses os arrependimentos que irão aparecer para você no último suspiro.
Mas sim um sentido que te dá paz, que te mostra uma realização de ter cumprido uma missão, de ter vivido uma boa vida.
Uma vida que teve um compromisso com a verdade, não aquela sua verdade, com a Verdade, com uma vida de verdade, sua, que você escolheu viver, que você ratificou as decisões que tomou, que retificou outras e recomeçou, e fez, que assumiu, que sustentou e que depois que encontrou o eixo, permaneceu nele.
Uma vida, que você possa olhar para trás e, muito diferente da girafa, possa dizer EU. Instalado na vida real, como ela é, como ela te pediu, com pessoas que te ajudaram a ser quem só você poderia ter se tornado e se tornou. Uma vida SUA.
Se ao chegar aqui você não consegue responder com clareza em torno do que sua vida está girando hoje, preparei um material gratuito, curto e direto.
Ao final, há um exercício simples com um único objetivo: ajudar você a perceber o que realmente tem guiado sua vida, antes de tentar mudar qualquer coisa.

Sobre o Autor
Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.
Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.

Pingback: Está difícil fazer um autodiagnóstico? -