O olho não foi feito para se ver
Olhe para fora
Mais do que um artigo, esse será um pedido que vou te fazer.
Um pedido que vai fazer bem para você.
Por isso, sem implicância, leia, reflita, comece a reparar o que tem feito e comece a colocar imediatamente os meios para mudar.
Quero que você preste atenção onde está o seu olhar, onde sua atenção está posta.
De verdade. Não onde você quer que ela esteja, nem onde você diz, repete e reafirma para você e para os outros onde a sua atenção está. Quero que você repare onde ela está verdadeiramente posta.
A Estrutura do Olho Humano
Os oftalmologistas que me perdoem a imprecisão, mas vou tomar um tipo de licença poética para falar do olho humano com uma precisão mais humana e com menos rigor técnico.
Se observarmos a estrutura física do olho humano vamos perceber como é projetado. Uma estrutura de “leitura”, considerando a retina, cones e bastonetes e o nervo óptico, e uma estrutura de foco, incluindo a córnea, a íris, a pupila e o cristalino. As pálpebras não são parte especificamente do que chamamos de olho, mas vamos considerar, pensando no importante papel de limpar a lente e “renovar” a visão.
Não seria fisicamente possível virar o nosso olho ao contrário para enxergar o nosso interior. Além de romper o nervo óptico, encontraríamos uma densidade de tecidos e músculos, além de uma escuridão que não nos permitiria ver, nem mesmo se o olho funcionasse com uma rotação de 360 graus.
Nossos olhos são perfeitamente projetados. Uma parte mais externa ajusta o que seria o foco, o que precisamos ver com nitidez, enquanto uma parte mais interna interpreta aquela luz que entra e nos dá a imagem que vemos. Reflexão de luz dada em realidade. Com mecanismos de adaptação diversos, considerando distância dos objetos, quantidade de luz no ambiente, disposição física das partes que compõem a imagem e aquilo que mais nos chama a atenção.
Não atoa percebemos mudanças físicas reais de abertura dos olhos, com expansão da pupila quando nos deparamos com uma situação de perigo, quando estamos apaixonados ou quando o ambiente está escuro e você precisa buscar alguma referência para se orientar.
Se olharmos para a estrutura física dos nossos olhos, vamos perceber facilmente o que é pedido de nós:
OLHAR PARA FORA
Nossos olhos não foram feitos para ver dentro de nós, mas foram perfeitamente projetados para ver o lado de fora. Aí mora a maravilha e o ponto central do que precisamos refletir.
A atenção e como ela funciona na nossa consciência
Ao longo da vida vemos muitas imagens. Já vi estimativas de que veremos cerca de 24 milhões de imagens diferentes ao longo da vida. Algumas delas certamente são coisas que voltamos nosso olhar justamente para o objeto em questão, mas grande, diria que a maior parte dessas imagens entram nos nossos olhos sem nenhum planejamento, sem nenhuma intenção.

Sendo assim, precisamos de um mecanismo que nos permita filtrar, o que faz sentido para nós e o que vai ser computado nessas imagens, mas que não vai fazer parte daquilo que realmente vemos.
Podemos levar uma vida olhando para nós mesmos, olhando para nossa vida.
É uma tentativa de olhar para dentro. Para as nossas questões, para os nossos problemas, para as coisas que nos incomodam, coisas que fizemos ou deixamos de fazer, que os outros fizeram conosco ou deixaram de fazer. Essa é uma possibilidade real.
Mas não me parece ser a melhor opção. Se tenho uma ferramenta de visão e ela é perfeitamente ajustada para fora e ineficiente, ou mesmo inviável, para dentro, me parece que o melhor uso dela é que seja para o que ela foi projetada.
Idealmente, quando compramos uma máquina fotográfica (que tenta imitar o funcionamento do olho), vamos procurar olhar o manual de instruções para entender como ajustar o foco, a abertura da lente, controlar a exposição à luz, o brilho, o contraste, os tipos de lente para cada situação ou mesmo os melhores horários do dia para cada tipo de foto que desejamos fazer.
Da mesma forma, nos convém pensar que, para o tema da visão, poderíamos perguntar para quem projetou essa ferramenta, qual a melhor forma de uso dela. Além de ter feito o olho, também é um observador onisciente e tem autoridade para nos mostrar e ensinar como fazer uso dela.
É dessa forma que deixamos de ter a nossa atenção em nós mesmos e passamos a voltar o foco da nossa lente para fora, de onde a luz vem e irradia na realidade.
Sem nenhum conformismo, passamos a ver e ganhamos força. Não a força de alguém especial ou um ser histórico e mitológico, mas a força de quem passa a usar o martelo para pregar um prego e uma chave de fenda para quem quer apertar um parafuso e não o contrário.
Começamos a nos tornar, ou ao menos ter mais clareza sobre quem devemos nos tornar e essa luz que estava fora começa sim a iluminar o interior. Passamos a ver e a conversar com esse observador onisciente ao final de cada dia, avaliando como foi o nosso dia. A começar por onde a nossa atenção foi posta.
Vi milhares de imagens.
Em quais delas minha atenção parou por mais tempo?
No barulho do carro que tirou minha concentração e que demorei mais de 30 minutos para retomar o que estava fazendo? No Instagram e no tempo que consumi no dia ali? Na vida da vizinha?
No trabalho que tinha para entregar hoje? Na refeição que preparei para a família? No trato com as pessoas com quem convivo? Nas reclamações da esposa? Nas coisas novas que a filha aprendeu?
Aqui não se trata de ter uma atividade certa ou errada para prestar atenção. É claro que existe uma hierarquia e certas atividades são mais excelentes que outras, mas o ponto central é: Quais dessas atividades são verdadeiramente importantes para você e quais delas você realmente prestou atenção?
Veja: Ir a academia, fazer um bolo e estar presente na missa são todas atividades excelentes. Mas terão pesos diferentes para quem é padre, fisiculturista ou quem a tia doente e sozinha faz aniversário hoje.
Esse é o ponto central. Diante desse observador onisciente, em sua companhia, ao final do dia, você e ele, em uma conversa necessariamente sincera, porque por ser onisciente ele já viu tudo de qualquer modo. Sobre o que você diria que a sua atenção estava posta?
Lembre-se que você sempre tem a possibilidade de justificar a sua ação: O fisiculturista pode ter feito o bolo e gastado muito tempo nessa atividade porque está em bulking, o padre pode ter passado 4 horas na academia porque uma mente forte precisa de um corpo forte e a senhora que tem a tia doente e sozinha pode ter participado de 2 missas, do grupo de oração e do terço e ainda gastado grande parte do dia ajudando na festa beneficente, rezando e pedindo pelo bem da tia.
O ponto é: Olhando para fora e tendo em vista o que você precisa fazer para ser quem você deve ser, é ali que está o seu olhar? Sempre poderemos nos justificar e parecer bons, mas será que verdadeiramente estamos SENDO?
O olho é capaz de ver o que é. O que verdadeiramente de fato é. Nós é que damos voltas, olhamos para dentro e nessa tentativa de romper o nervo óptico mandamos essa imagem deformada para dentro.
Horas em redes sociais vendo a vida dos outros.
Ahh, mas ali temos ótimos exemplos, tenho contato com gente que nunca poderia ter no meu ciclo de amizades e exemplos reais de vidas que me abre a possibilidade de ser melhor…
Excelente! E quando você olha para a vida real, para suas ações a partir disso, elas realmente estão sendo muito melhores? Ou você melhorou em alguma coisa, criou uma consciência de algo e agora continua repetindo esse mesmo ciclo, tentando copiar a vida daquela pessoa sem olhar para as suas circunstâncias e para o que a vida TE pede, pessoalmente?
Vemos milhares de imagens. Algumas delas serão mesmo vocacionais para nós e irão mudar o rumo das nossas ações. Outras serão bonitas e igualmente boas, mas não para nós.
Dentre todas aquelas imagens que vemos, quais devemos dedicar maior tempo da nossa visão? Aquelas que nos chamam para sermos quem deveríamos ser, na nossa realidade. É disso que nossa consciência irá nos cobrar ao final de cada dia.
Nossa personalidade ao olhar para fora
Ao olhar para fora começamos a ser e a agir com mais dignidade, mais orientados ao que devemos ser, ao que precisamos nos tornar e começamos a parar de ser um problema para nós mesmos, paramos de tentar olhar para dentro e projetar essa imagem que temos de nós mesmos em um lugar que nem conseguimos ver direito.
A nossa personalidade começa a se formar verdadeiramente a partir desse movimento do olho.
Ajustamos o foco do lado de fora e para a luminosidade possível. Muitas imagens começam a entrar, ajustamos novamente o foco para ter no primeiro plano aquela imagem que queremos ver com nitidez e embaçar aquela no fundo que aparece, que é boa, mas não necessariamente é boa para mim.
Começamos a nos dedicar verdadeiramente àquelas coisas, aquelas que a luz ilumina com maior força, que conversa diretamente com a nossa consciência e paramos de reclamar, de rotular as coisas boas e ruins, as pessoas ou as situações e passamos a agir.
A ação molda nossa personalidade. Ajustando o foco naquilo que entra, lendo e colocando para dentro aquilo que a vida nos pede e de tempo em tempo piscamos.
Nossa pálpebra se fecha e se abre novamente, renovando a imagem e o compromisso. Por alguns milissegundos olhamos para dentro e lembramos que dentro é escuro, que não da para ver nada e que se o olho tentar virar ao contrário o nervo se romperia e a comunicação com o cérebro iria cessar.
Esse é o piscar de olhos, uma lembrança de olhar para fora, uma limpeza da lente e um novo convite a voltar o olhar ao que realmente importa. Indefinidamente? Não, o olho arde e resseca se não piscarmos, mas perdemos a ação se ele permanece fechado.
A isso damos o nome de dormir e fazemos isso ao final do dia, cansados, depois que vemos, que agimos, que apresentamos nossas ações e conversamos com esse que fez essa ferramenta e que vê tudo e que avaliamos aquilo que devemos colocar nossos olhos e aquilo que devemos tirar o foco no próximo dia.
E assim damos a nossa vida aquilo que ela nos pede, aquilo que podemos ser e aquilo que faz sentido. Essa realização é a alegria de ver e isso é o que constrói uma personalidade forte.
O olhar e o nosso Eixo
É assim que encontramos nosso eixo. Ele não é escolhido, ele é dado pela realidade. Basta olhar.
Mas se não vemos onde nosso olhar está posto não saberemos em torno de que nossa vida gira. Não saberemos o que nos tira do eixo, nem ao redor de que precisamos colocar nossa atenção para que possamos realizar aquilo que a vida nos pede.
Tudo começa na atenção. Atenção para ver como a realidade é feita e o que ela nos pede, atenção ao que estamos nos inclinando, atenção para mudar aquilo que percebemos estar fora do eixo, atenção para aquilo que é pessoalmente vocacional para cada um de nós individualmente e atenção ao outro, para fora, para o que te revela isso tudo.
Nosso eixo está onde está nossa atenção.
Dívidas, pensamentos ruins, catastróficos e desastrosos, tudo vai dar errado ou nada acontece na minha vida. Bom, sua vida vai girar em torno disso. Não que isso vai fazer qualquer coisa acontecer, não é força do pensamento nem nenhuma dessas bobagens de atração.
É que existe a forma positiva e a negativa de olhar para cada coisa. Se a minha atenção está no meu casamento e no desejo de eternidade da minha esposa, minhas ações deverão refletir esse tipo de atenção, vou me dedicar a criar um ambiente tal para ela que ela possa se aproximar mais disso, evitando para ela situações que possam gerar um mal para essa eternidade dela e criando situações que a aproxime disso, mantendo ela com menos preocupações e mais tranquila, estando presente quando ela precisa de mim e querendo viver uma vida que eu possa compartilhar com ela o que vivi, da mesma forma que eu posso compartilhar com o observador onisciente ao final do dia, de forma sincera e verdadeira.
Se falo que minha atenção está no meu casamento e ao final do dia o que penso é em descansar, em ter um tempo para mim, em dívidas, no trabalho, minha atenção não está posta no casamento. Disse um SIM e agora, ao final do dia digo um NÃO a cada uma das situações que me são apresentadas e mais um NÃO a mim mesmo, mentindo para mim o verdadeiro lugar que a minha atenção está.
Isso não vai gerar em mim uma insatisfação e uma frustração decorrente da falta de sinceridade. Vejo uma coisa e declaro outra. É isso que está fora do eixo.
Olhar para Ver. Ver para conhecer e conhecer para Ser.
Um movimento que começa no olhar, mas precisa ser direcionado para o agir, só assim encontramos nosso eixo, só assim nos tornamos melhores, só assim tratamos cada coisa que é com a dignidade que ela tem e assim passamos a SER também.
Se ao chegar aqui você não consegue responder com clareza em torno do que sua vida está girando hoje, preparei um material gratuito, curto e direto.
Ao final, há um exercício simples com um único objetivo: ajudar você a perceber o que realmente tem guiado sua vida, antes de tentar mudar qualquer coisa.

Sobre o Autor
Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.
Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.
