Não foi sem Querer!
Tenho tanta vontade…. queria tanto isso….
Tem mesmo?
Tem certeza disso?
Fazemos as coisas porque queremos, deixamos de fazer pelo mesmo motivo.
Uma vontade encontra uma maneira.
Quando falamos de uma vontade, estamos falando de alguém. Eu sou a minha vontade. Sob um certo aspecto podemos afirmar isso com uma boa precisão.
Nossa confusão acontece ao misturar o que é desejo e vontade e usar as palavras da mesma forma, quase como sinônimos. Hoje, na língua portuguesa, é muito comum vermos a palavra vontade, informalmente para expressar desejos. E em alguns casos até se usa desejo para expressar algo mais intenso, o que aumenta a confusão.
A vontade é, sobretudo, a capacidade de decidir.
Mas se confunde muito a vontade com o desejo, ou mesmo com a imaginação.

Quando falamos de desejo, estamos falando especificamente de motivações do sujeito, isso sozinho não gera decisão alguma e quando decidida, quase sempre, não é algo meditado, nem muito sustentável.
Um desejo de comer chocolate depois do almoço, desejo de ir viajar no final de semana ou mesmo de prestar um concurso público, de aprender uma habilidade para trabalhar com IA ou de constituir uma família.
Existem diversos níveis disso que podemos chamar de desejo, que se não forem meditados e tomados como pessoalmente importantes que sejam realizados, mobilizando suas inclinações internas e externas para que isso ocorra, não irá passar disso, um desejo.
Normalmente vemos como uma simples motivação. Vemos aquilo, queremos os resultados e não movemos um músculo para alcançar de fato aquele objetivo. Queremos o resultado sem o esforço. Sem o caminho.
E isso é mais comum do que imaginamos. Se estamos inseridos em um ambiente no qual todos tomam determinadas “decisões”, acabamos por continuar seguindo o fluxo naturalmente.
Perceba que para aderir a isso não é necessário um grande esforço, nem um alto grau de consciência. Simplesmente fazemos o que todo mundo está fazendo. Em alguns casos será uma faculdade, um emprego, uma atividade, em outros serão ações mais desonestas ou imorais.
O ambiente não nos determina, mas nesse sentido, exerce grande influência, e se eu não tenho desenvolvida a minha vontade e minhas ações são movidas pelas minhas motivações, pelos meus desejos, o efeito é quase que uma determinação do meio.
Para alguns pode acontecer das circunstâncias serem favoráveis e, mesmo sem nenhum ato de vontade, seguindo o fluxo, as circunstâncias e o seu meio te levarem a um resultado que, para você, seja considerado um sucesso.
Mas para ir contra essa correnteza será necessário do indivíduo um ato de vontade capaz de moldar o ambiente a sua volta. Não mudar o ambiente, não consertar o sistema, mas criar um ambiente seu, moldar as circunstâncias de modo que prevalesça a sua decisão, a sua vontade.
É ai que entra um grande ponto. Um divisor de águas de como podemos encarar a nossa vida.
Bom, deu para entender a ideia do desejo e como normalmente agimos. Agora, antes de avançar é importante entendermos o funcionamento da imaginação, nesse sentido.
Quando surge essa vontade que digo “queria muito isso…” posso ter entendido o que a coisa é, posso inclusive ter até meditado no que deveria fazer, nos sacrifícios que eu deveria assumir e nos resultados e consequências daqueles meus possíveis atos.
Vi e entendi o mapa, lí o cardápio, fiz as projeções. Isso se parece muito com decidir. Parece muito com o que chamamos de vontade, com essa capacidade mesmo de decidir. Parece né?
Essa é a decisão simplesmente imaginada. Se imagino que decidi alguma coisa e no momento seguinte minhas decisões não me levam naquela direção, na de realizar a coisa, estou somente no mundo das ideias, é mera imaginação.
A própria imaginação e visualização de cenários hipotéticos e projeções pode ser um grande perigo à nossa vontade. Ao fazer isso na imaginação, usando inclusive ferramentas (planilhas, IA, essas coisas), tenho a sensação de ter alcançado algo e satisfaço de certo modo um desejo meu, mas apenas na imaginação.
Visualizar aquilo que queremos é uma condição necessária para que algo de fato se realize no sentido de cumprir um plano, saber do que se trata e o caminho a ser seguido, mas está longe de ser vontade e muito mais longe de ser a realização de algo. É vontade não realizada, vontade apenas imaginada, que se não houver um movimento real da vontade, não vai passar disso.
Querer, no sentido de ato de vontade, verdadeiramente ter vontade, é mobilizar nossa capacidade em direção a esse plano, à finalidade de realizar uma transformação em nós mesmos para alcançar o objetivo definido anteriormente.
Nesse sentido poderíamos pensar no que nos diz o apóstolo Paulo: “Não faço o bem que queria, mas o mal que não quero.”
Isso nos traz uma ideia da luta entre a nossa vontade consciente de agir corretamente e os impulsos ou hábitos (vícios) que acabam nos levando para o caminho oposto.
Essa clave de pensamento faz parecer que temos mais de um “eu” agindo dentro de nós, e sabemos que não é bem assim. Há sim uma ruptura entre inteligência e vontade, mas não fazemos de fato nada do que não queremos….só fazemos aquilo que queremos, essa é a realidade.
A atitude pode ser pouco meditada, ou podemos dar maior peso a um desejo em detrimento da nossa vontade, mesmo sabendo que essa é a que vai nos fazer conquistar o que queremos, mas isso não nos faz agir “sem querer”.
Sempre queremos, apesar de usar como um tipo de figura de linguagem essa mesma expressão para pedir desculpas pelo ato que cometemos. “Me desculpa, foi sem querer”. Ao dizer isso o que estamos buscando resolver normalmente é a nossa culpa, não as consequências dos nossos atos.
Veja como é contraditório, se arrepender e pedir desculpas. A própria culpa é um princípio de autoria. Como posso ser autor de algo, ter culpa de algo e não ter feito isso? Ou ter sido levado a fazer isso?
Digamos que você tenha suas mãos amarradas em duas hastes e como uma marionete você é levado a dar um soco em alguém. Você seria culpado disso? Ou quem controlava as hastes é quem tem a culpa?
Sabemos que o mal existe e da capacidade que há na realidade de influenciar nossos atos. Mas é isso, influenciar, não fazer por nós.
Além disso, a grande parte do que as pessoas costumam chamar de mal não é um mal em si agindo (o mal não tem tal substância agente), é na maioria das vezes nosso querer, fazendo e se justificando.
É isso, bem mais simples do que tentamos esquematizar.
Fazer uma distinção entre desejo e vontade é fundamental para entendermos essa confusão mental que fazemos e dar direcionamento aos nossos atos.
Você já deve ter tido a experiência de se pegar na situação de dizer que quer alguma coisa e não consegue executar.
Quer trabalhar melhor, mas se pega mexendo no celular por horas no dia, querer fazer dieta e mesmo comprando tudo o que seria o ideal, continua comendo errado, quer estar mais presente no dia das pessoas que ama, mas se vê “fugindo” dessas mesmas pessoas para descansar e ter um tempo para “fazer as suas coisas” ou “ficar um pouco em paz”.
No fundo, essa nossa confusão e a nossa dificuldade maior é um processo de reconhecer a ordem do mundo e decidir viver segundo essa ordem existente ou criar uma ordem própria, sozinho e, de algum modo, tentar fazer a realidade se curvar a essa ordem sintética criada por nós mesmos.
Aqui está o grande divisor de águas que comentei anteriormente. Querer mudar o sistema é fazer parte dele, criar um sistema próprio é a forma possível de encará-lo. Mas fazer isso de modo que você vá contra a ordem imposta pela realidade será um grande sofrimento e causa de uma grande infelicidade na sua vida.
Percebo que causei uma desordem no mundo. Culpa é assumir a responsabilidade por um ato que considero desordenado, as consequências desses atos desordenados são a criação de um mundo de responsabilidade minha. Cometo um erro e carrego comigo as consequências desse erro, um mundo criado por mim.
É a imagem mitológica que conhecemos disso, é Atlas carregando o mundo por desobedecer Zeus, o deus da ordem. Zeus, a ordem, quando desordenada, coloca o mundo para Atlas carregar. Nós quando erramos criamos um mundo de consequências que também deveremos carregar, essa é a experiência humana de culpa.
Para tirar esse mundo das costas nós nos desculpamos, ao sermos desculpados nos aliviamos do peso, podemos por fim tira-lo das costas.
Se eu uso a sua caneta, com a ponta, com a parte da tinta, para mexer um remédio em um copo e fazer o pó dissolver. Podemos dizer que é um uso possível da caneta, mas longe de ser o uso próprio dela ou para o que ela foi criada.
Se a caneta estraga e para de funcionar posso te pedi desculpas para aliviar a minha culpa. Posso também comprar uma caneta nova, até melhor que a que eu estraguei, e te devolver, buscando reparar a desordem que eu causei.
Mas quando eu vivo uma vida toda desordenada, estou vivendo mal, trabalhando mal, sendo um pai ruim, um marido que tem mais faltas que acertos e faço um exame de consciência e percebo essas coisas, se errei com tanta gente e tantas vezes, em tantas situações diversas que não consigo nem imaginar como me desculpar e pagar penitências para tanta gente, o que eu faço?
Somente aquele que criou tudo e é o detentor de toda a ordem que poderia me perdoar, que teria a capacidade de fazer, não porque sou importante demais, mas porque seria humanamente impossível eu refazer essa ordem sozinho.
Da mesma forma que a ordem da caneta se reestabelece ao perceber que eu dei um uso inadequado para ela por querer criar uma ordem minha e não viver aquela presente na realidade, para uma vida de usos inadequados, preciso pedir desculpas a quem criou e detém a coisa.
Essa é a beleza do sacramento da confissão, do sacramento da penitência. Ser desculpado pelo autor da ordem. Tirar todo o peso das costas e ter todo o peso do mundo sendo carregado por aquele que detém toda a ordem do mundo.
A confissão tem a capacidade de me aliviar de todas as culpas, mas não de aliviar de todas as penas. É por isso que após o perdão dos pecados o sacerdote nos passa uma penitência geral, algo como “reze um Pai Nosso e três Ave Marias”.
Mas existe uma pena como consequência da desordem causada. Se você “estragou a caneta, está estragada e agora está tudo bem, Deus já te perdoou, não volte mais a pecar. Agora vai lá e compra uma caneta nova. É isso que faz com que a gente resolva o problema que temos de remoer a pena, o problema que chamaríamos de remorso.
Nossa tragédia hoje é ser aliviado da culpa artificialmente.
Estraguei a caneta. Pensar: Não tem problema, aquele cara tem uma caixa dessas canetas; ou: ah, ele sempre que vem aqui fala mal dos outros, quem sabe assim ele aprende e deixa de fazer essas coisas. É uma tentativa de mudar a verdade para aliviar a desordem causada na realidade.
É aliviar a culpa, não por pedir desculpas ao dono da caneta, mas por justificar de modo que a verdade possa ser alterada e com isso você se sinta melhor. Isso vai te destruir por dentro. Não é assim que vamos resolver.
Se aliviar da culpa artificialmente sem ser uma desculpa verdadeira não parece ser um caminho. O grande ponto não é a culpa que sentimos, mas a relação de ordem e desordem causada. A nossa felicidade está muito mais ligada a esse caminho.
Desculpa e Penitência, viver segundo uma ordem existente, na realidade, são o que curam o homem e o levam a sua perfeição.
Quando você erra a tradição nos ensina a nos confessar. Um ato de mendicância. Dado que fiz o que eu fiz porque eu quis e por isso confesso “minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa” eu me responsabilizo unicamente por aquilo que eu fiz.
A culpa foi minha.
Ao fazer isso esperamos uma esmola, não por direito. Não porque merecemos.
Ao darmos uma esmola para um mendigo não damos porque ele merece, ou porque ele teria esse direito.

Ele deveria pedir a esmola porque reconhece que não tem meios e ao dar essa esmola dou uma esperança a ele, um dinheiro que ele não tinha e que agora pode comer algo que provavelmente antes não poderia.
A medida que eu dou a esmola abro a possibilidade para ele de comprar comida, sabonete, drogas, cachaça, um esmalte, pasta de dentes, um sabonete, sei lá, o que ele quiser.
Quando pedimos perdão ou alguém nos pede perdão, o que está sendo realmente pedido são novas possibilidades, vida!
O sentido da vida humana é o perdão. Uma pessoa que não tem o hábito de reconhecer sua pobreza, sua pequenez, uma pessoa que não esteja habituada a pedir essa esmola tem uma falsa visão de si. Começa a viver fora da ordem da realidade.
Somos imperfeitos e ao não reconhecer nossa imperfeição somos fadados ao destino, à morte. Quem não meditou o suficiente quanto ao pedido de perdão, tem uma falsa visão de si. São essas as pessoas que mais se enganam. “Não vou pedir perdão por causa disso, ou não vou perdoar por causa daquilo!”
Você não pede perdão e não perdoa porque NÃO QUER!
Fazemos aquilo que queremos, essa é a realidade.
Essa é a manifestação mesmo da Soberba. Crio uma “ordem” diferente da realidade e passo a querer vivê-la como se fosse melhor do que a realidade apresentada. E dou as mais limpinhas e bonitas justificativas para me manter por cima.
Você é a sua Vontade. Você é uma força que age e que causa movimento sobre as coisas. Ao contar uma história, ao desenvolver uma narrativa, contamos a história de uma vontade. Nesse sentido existem pessoas mais excelentes que outras e cujo movimento delas desencadeou um efeito qual que fez outras vontades se despertarem.
Quem é essa vontade perfeita e excelente, que move todas as outras, que desperta todas as outras, que da novas possibilidades a todas as outras? É o próprio Deus. Deus é a suma vontade.
Você também é uma vontade, que pode aderir a essa esmola, ou olhar para si mesmo e achar que não precisa de esmola. Pode não reconhecer o seu tamanho e ter uma falsa visão de si.
Está ali, você, como mendigo, com a barriga doendo de fome, diante de um homem rico que quer te dar uma esmola e o que você diz é “eu não sou mendigo, não preciso de esmola”. É mais ou menos assim que a maioria das pessoas vivem.
Esmola é amor.
Só da para amar quando olhamos para uma pessoa e para nós mesmos e reconhecemos que o ser humano é uma força agente.
Uma força que age. Não somos aquilo que dizemos que somos. Uma pessoa não é a história que ela conta, a justificativa que ela dá. É uma força que age.
O amor está justamente nessa capacidade que temos de criar um leque de possibilidades, de abrir um leque de possibilidades para a pessoa que amamos. E fazer isso repetidas vezes a medida que essa vontade for se apagando e a força for ficando pequenininha.
Essa é a principal decisão mesmo do que chamamos de vontade.
Amor é dar ao outro aquilo que ele não é mais capaz de garantir por si mesmo. É por essas e outras que o amor requer prova.
Amor verdadeiro requer prova.
A prova está no desmerecimento do outro.
Quando o outro não merecia receber, é ali que amo, quando eu menos mereço ali percebo que sou amado.
Quando percebo uma vontade mais excelente que a minha abrindo na minha frente um leque de possibilidades. Isso é vida…a história ainda não acabou. Esse é mesmo o sentido da nossa vida.
Não fazemos nada sem querer, quando faço algo é porque eu quero. E quanto mais eu tomo consciência disso, quanto mais vivo segundo essa ordem imposta pela realidade e não uma que criei e que uso para justificar todos os meus atos, mais próximo da verdade fico, com mais sinceridade posso agir e me corrigir.
E agir, corrigindo a trajetória a cada dia. E ser melhor.
Então, sempre que pensarmos em ter vontade de alguma coisa, que seja consciente, e que isso nos leve a verdadeiramente fazer, a agir com amor.
É a confissão que reestabelece a sua vontade com a ordem do mundo. É a partir daí que podemos voltar a falar de vontade, essa vontade que age, que coloca os meios, que encontra uma maneira, e que somos nós.
Eu verdadeiramente acredito sermos essa vontade e só por isso é possível, através desse caminho, transformar e transformar-se com amor.
Se este texto fez algum sentido para você, talvez valha a pena conhecer também outros trabalhos que venho desenvolvendo.
No blog deixei reunidos alguns materiais que venho produzindo: com exercícios práticos que nasceram do mesmo esforço de compreender melhor a vida adulta e suas responsabilidades, de encontrar um eixo e buscar viver olhando para o que realmente importa.
Você pode encontrá-los aqui:

Sobre o Autor
Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.
Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.
