Copa do Mundo: Tradição e Eixo

O Jogo é para ser jogado. Como podemos contribuir?

Ano de Copa do Mundo, a cada 4 anos todo mundo vira técnico de futebol, mesmo aqueles que não entendem nada querem dar um pitaco.

Eu mesmo não acompanho os jogos, conheço os jogadores por nome, pelos amistosos que começamos a ver quando chega essa época do ano e por vídeos de Youtube, ou seja, meu conhecimento de futebol é zero e minha opinião sobre é totalmente irrelevante.

No entanto, me peguei pensando sobre isso durante o último jogo amistoso contra a Croácia essa semana. E está ai uma das vantagens de estar escrevendo um blog, vez ou outra posso me permitir falar sobre coisas que não sei e quem sabe, a partir disso, ajudar com alguma coisa que sei.

Não ajudar o time, ou os envolvidos, mas àqueles que se dispõe a ler.

O que me parece é que o brasileiro em geral não tem muita esperança de levar o título de campeão do mundo esse ano. Na verdade, tem pouca esperança já faz algum tempo, mas certamente gostaria. O futebol é uma paixão nacional e um elemento de união do país, é inegável.

Quando falamos de esperança, no sentido mais prático e material do termo, estamos falando de resultados possíveis para ações concretas realizadas. Nesse sentido, vemos sim, jogadores que fizeram e fazem um bom trabalho nos times onde atuam e com desejo de ganhar o título pelo país.

As discussões quanto ao trabalho ser bem feito, sobre o talento envolvido ou a capacidade física e psicológica de cada um em campo é válida e isso fica para os comentarista e gente que verdadeiramente acompanha o esporte e pode contribuir em algo em termos de entretenimento e estratégia.

Na minha opinião, que não vale absolutamente nada nesse sentido, está envolvido apenas um desejo de espectador, que observa e espera, com alguma esperança, de ver um sentimento de Brasil diferente em torno da seleção e uma vitória para o povo brasileiro. Não só nos jogos, mas em torno dessa atmosfera que se cria nessa época do ano.

Gostaria de ver uma seleção com os meninos novos assumindo papeis importantes. Queria ver o Estevão jogando no lado direito, cortando para dentro e dando trabalho dentro da área. Vinícios Jr. acelerando pelo lado esquerdo, ligando o contra-ataque e dificultando a vida da defesa. Endrik na frente, recebendo passes do Estevão e girando para chutar forte, João Pedro fazendo essa liga junto do Estevão e Luiz Henrique entrando para ajudar.

Um ataque forte dos dois lados que incomoda e cansa muito todo time que enfrentar. Neymar convocado para entrar no último terço do jogo, aos 15 do segundo tempo, jogado um pouco mais a frente e distribuindo o jogo, finalizando, mas sem exigir muito fisicamente. Aproveitando a experiência e habilidade em um momento em que o outro time já esteja mais cansado.

Mas nem só habilidade é necessário. Ganhar um jogo da copa do mundo não é fácil. É importante também experiência e alguns que possam coordenar o time para não perder a cabeça. Dentro de campo é bom ter alguns que já passaram por grandes jogos como Casemiro e o Marquinhos. Além de serem ótimos jogadores nas posições que atuam, fariam o papel da experiência dentro de campo também.

Não só dentro de campo. O Brasil é uma das poucas seleções que teria capacidade de formar uma espécie de conselho para guiar na tradição esse time que está sendo composto. Poderíamos ter Ronaldo, Cafú e Roberto Carlos na preparação, ao lado do campo e dentro do vestiário no intervalo, não basta 5 estrelas na camisa, a tradição importa, precisamos saber o que devemos e o que queremos, sem isso, em algum momento, ficaremos desorientados.

Ter gente experiente, capaz de passar essa tradição na prática faria muita diferença.

E faz muita diferença na nossa vida também.

O ser humano não tem o instinto como é presente no animal. Você não vai ver uma vaca sentada na rua pensando se ela produziu a quantidade de leite que era esperado dela, ou um border colie pensando se fez um bom trabalho de pastoreio.

O animal faz por instinto do jeito que precisa ser feito.

Por muito tempo, e em algumas culturas vemos funcionando melhor ou pior, as pessoas, na falta do instinto, se guiavam por tradições.

Dos pais para os filhos, dentro de uma determinada comunidade, no convívio, as pessoas sabiam o que era esperado delas e como fazer aquilo.

Sem isso, nos tornamos presas fáceis de um movimento de massa, ficamos sujeitos ao totalitarismo ou ao coletivismo. Sem estar instalado em uma tradição religiosa, filosófica, perco a direção do meu caminho e encontro o que Viktor Frankl chamou de vazio existencial.

As “soluções” nesses casos são: o coletivismo, fazer o que todos fazem; ou o totalitarismo, algo imposto por alguém. E dá para perceber até mesmo nas conversas com pessoas próximas de nós um desejo por uma dessas supostas soluções: Ou a pessoa repete mimeticamente, sem reflexão ou avaliação nenhuma o que os outros estão fazendo, ou tudo o que queria era que alguém as dissesse o que fazer. E em muitos casos esse ciclo continua a se perpetuar depois que não obteve os resultados desejados, culpando o meio no qual vive (os outros) ou aquele que definiu o que a pessoa deveria fazer.

Chamar os jogadores experientes para guiar essa seleção que se forma seria um movimento de responsabilização própria e de tradição. Falar “passamos por isso, dá para ser feito assim”, assumir a fala em entrevistas e preservar os jogadores, seria um movimento interessante.

Mas mais do que isso, poderíamos trazer esperança para o país. Não em levar o título. Mesmo sem entender do jogo, consigo ver que as chances são bem baixas. Mas uma esperança real.

Um movimento de resgate de tradições, de um povo que pode se unir em torno de uma paixão, de demostrar que os mais velhos podem guiar os mais novos. Um movimento de combate a mesquinharia e de tirar esse sentimento polarizado de nós contra eles a começar pela seleção que ganhou e a que não tem chance de ganhar.

Um Brasil jogando junto e chamando a população a fazer isso também.

A olhar para o país como um povo que pode assumir responsabilidades e guiar sua família, se formando, adquirindo experiências e sendo esses mais velhos que podem passar a tradição.

Hoje passamos por um tipo de crise dos mais velhos. Uma crise de maturidade. Uma geração que chegou a idade avançada sem ter meditado na vida, sem se preparar para a morte. Pensando em viver o que não viveu no passado, cheia de arrependimentos e com pouca maturidade para sentar com os netos e aconselhar, sem habilidade para manter as tradições vivas e sem muitas tradições vividas.

Temos a oportunidade hoje de assumir o nosso lugar no nosso círculo de amizades, no nosso trabalho, na nossa família e fazer isso como quem busca a humildade. Saber o nosso tamanho e saber quem somos e agir a partir daí. Não é necessário um grande movimento, mas uma tomada de consciência real. Uma disposição genuína em amadurecer e em matar essa mesquinharia que carregamos.

Os mais velhos de hoje estão tão perdidos quanto os mais novos. Seremos nós a próxima geração de velhos.

Podemos ser a que irá dizer que “No meu tempo era melhor…” ou podemos aconselhar a próxima com uma vida vivida com sentido, uma vida meditada e preocupada em amadurecer, para quando chegar a nossa vez de aconselhar tenhamos verdadeiramente o que dizer e não só nos achar dignos de falar algo porque nosso cabelo está branco.

Você está vivendo uma vida que vale a pena ser consultada no futuro?

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Sobre o Autor

Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.

Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.

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