Viva o Presente
Podemos acordar pela manhã como se esse fosse um dia qualquer, levantar da cama, escovar os dentes, tomar um café e nos preparar para um novo dia, quase que no automático.
Fazemos e repetimos isso tantas vezes que acabamos não prestando muita atenção.
Observar os músculos se esticando ao se espreguiçar, notar com qual pé levantamos da cama, a temperatura da água ao escovar os dentes e mesmo a quantidade de espuma que fez ou deixou de fazer.
Ouvir o som da água fervendo para preparar o café e o aroma daquele café recém preparado, estar presente em cada ato.
Eu sinceramente acho isso a maior besteira!
Essa é quase a vida de um cachorro. Isso não pe presença e não é próprio do ser humano estar presente dessa forma.

Isso é muito mais próprio dos animais.
Mas em uma época e em lugares que temos uma concentração de ansiosos por m² recorde esse tipo de prática parece fazer sentido.
Não pelo que ela oferece, mas ao que ela restringe.
Estar presente dessa forma animalesca ajuda você a estar em contato com uma realidade. Essa realidade física concreta que nos pede coisas.
O cachorro faz isso: ele sente fome e come, tem vontade de fazer xixi e aqueles de apartamento, bem treinados procuram o cantinho reservado para isso e fazem até que de forma bem educada. Sentem cheiros e escutam barulhos, estão atentos e presentes.
Também queremos estar atentos e presentes e fazer isso igual a um cachorro traz vantagens para aqueles que estão vivendo de forma tão automática que por uma figura de linguagem podemos dizer que estão desinstalados da realidade.
Esse exercício de instalação é emergencial e paliativo: Observar as cores do ambiente, escutar sons ao redor, colocar uma pedra de gelo na boca, sentir a textura e a temperatura. Isso não resolve quase nada, tem por objetivo fazer a pessoa parar de pensar e se instalar em um lugar concreto.
A ansiedade vem do medo e ganha intensidade com nosso pensamento. Esse pensamento para o ansioso é real e o comprime a ponto de achar que aquilo que está pensando é o único caminho possível a ser percorrido e que aquelas consequências já são certas de acontecer. Isso intensifica aquele primeiro medo e um ciclo se inicia.
Esses “exercícios de instalação” fazem a pessoa parar de pensar nisso e olhar para o real. Com esse objetivo são bastante úteis. Como um tipo de filosofia de vida são muito abaixo ainda do que um ser humano é capaz de fazer. E valorizar isso como o modelo de dia bem vivido e presente é rebaixar o ser humano.
Você não perder nada ao prestar atenção no café, no cheiro e na temperatura e deixar de mexer no celular enquanto come. É uma ótima prática. Mas muito melhor seria se você fosse capaz de não viver no presente somente.
Viva o Passado
Tomar um café e viver o passado é prestar atenção àquela temperatura e sabor, se mais doce ou mais ácido, se aquele tipo de café que tomou é do mesmo lugar desse que estava na sua memória, ou se vem de um lugar ou altitude diferente. Comparar esses dois e tirar novas conclusões, ou mesmo confirmar aquelas que tinha anteriormente. Reavaliar se você gosta de café ou se bebe apenas para obter seus efeitos, ficar mais desperto ou acompanhar um bolo, uma broa ou um pãozinho.
O passado precisa ser um lugar pacificado, cristalizado, de coisas que já foram e que não será mudado. Assumimos e lidamos com as consequências dele no presente e no futuro, mas não ficamos tentando imaginar, nos arrependendo ou querendo de algum modo dar um novo significado ao que já aconteceu.
Ele serve justamente para isso, como prerrogativa daquilo que estamos fazendo ou vamos fazer, não como algo que precisa ser revisitado ou que deva ser alterado. Não fique revisitando-o nesse sentido, nem aceite que outras pessoas te transportem para lá com o intuito de revive-lo ou cobrar algo desse lugar que já passou.
O passado serve para fundamentar nossas pretensões, como fundamento daquilo que vamos fazer nossos juízos. Nunca como algo inconstante que muda a todo tempo.
Isso ai, que muda a todo tempo e que muitas vezes pensamos ser passado, não é a nossa falta de memória nos pregando uma peça, e sim a nossa falta de consciência acerca das coisas que nos aconteceram e como formamos juízos acerca dessas coisas para projetar aquilo que queremos ou que faz parte dos nossos pensamentos no dia a dia.
A vida no passado é uma vida meditativa, mas não uma vida solta da realidade, imaginativa, uma vida que percebe o peso correto de cada coisa que aconteceu e como aquilo moldou ou formou conceitos para nós. Ela precisa ser meditada, como no exemplo do café, juntamente do presente, observando se aquele juízo feito continua o mesmo ou deve ser alterado (não o passado alterado, mas o novo juízo feito a partir da comparação). E a partir disso observar o que é necessário ser planejado para que isso se mantenha ou se evite no futuro.
Se acordo com atenção e percebo os músculos que estão sendo esticados ao espreguiçar e sinto uma fisgada nas costas vou me lembrar que quando tinha 20 anos isso não acontecia e que o movimento que fazia era muito parecido. Meu movimento não pode ser querer voltar aos 20 anos e reclamar de como agora isso não é mais tão fácil, isso não vai acontecer.
Minha inclinação deve ser notar que o movimento precisa ser feito agora de outra forma, mais lenta ou menos ampla, com o corpo um pouco mais aquecido e desperto, ou ainda me lembrar (buscando em um passado recente) o que fiz que me deu essa dor, a forma de deitar na cama, o travesseiro ou uma atividade que fiz no dia anterior.
Múltiplas fontes podem ser o motivo daquela fisgada, mas vivendo essa vida passada consigo validar o movimento de espreguiçar que estou fazendo ou planejar altera-lo se perceber ser necessário. Não faço isso vivendo o presente, faço como um ser humano.
Não porque alguém me disse, ou porque vi alguém fazendo diferente, essas são fontes válidas também, mas todas precisarão passar por esse processo de observação atenta, de meditação acerca do que tenho no meu acervo do passado, para que eu possa enfim planejar o que quero realizar, ou que preciso fazer, no futuro.
Viva o Futuro
De nada adianta viver o presente, prestar atenção a uma xícara de café, ao banho ou sentar a mesa sem o celular se o objetivo for apenas esse, estar ali, presente de corpo. Claro que a partir dessa atenção pode-se tirar muitos benefícios, mas se não houver uma verdadeira intenção, mais uma vez, vamos estar muito mais próximos de um cachorrinho bem treinado que de um ser humano.
As coisas precisam ser feitas com atenção, com a intensidade necessária, pelo tempo necessário, e com a intenção voltada para onde quer ou precisa chegar. Seus atos precisam dar respostas a suas perguntas ou às perguntas que a vida te faz.
Agir atento é apenas uma pequena parte inicial do processo. É algo que te possibilita adquirir material, mas que se não utilizado, meditado e direcionado da forma com que você precisa, ao final do dia, toda essa pretensa presença não servirá de muita coisa.
Precisamos nos acostumar a viver essa vida no futuro, planejando, imaginando. Não somos capazes de executar algo que não podemos imaginar, não de forma intencional, não dessa forma que podemos viver no passado, olhar o que fizemos e ajustar a rota para o futuro avaliando o que fizemos no presente.
É fácil se perder na vida se não conseguirmos planejar, se não conseguimos imaginar. É fácil se perder na imaginação se não temos o hábito da vida passada também, se nossas ações não forem meditadas. A imaginação é um recurso de quem tem domínio. Se você conhece onde está pisando consegue imaginar possibilidades e ações a tomar.
Imaginar cenários dentro do real e possibilidades diante das circunstâncias para agir com calma, e fazer isso como um mergulho, vivendo essa vida no futuro e voltando à superfície sem se afogar em seus próprios pensamentos.
A vida do futuro não deve buscar garantias, mas manter o olhar voltado para onde você quer chegar, mantendo-se orientado para recomeçar, retomar a trilha ou refazer o arranjo necessário para chegar nesse lugar que consegue enxergar olhando desde o futuro.
Viva o Presente
A vida no presente requer atenção, mas convenhamos, se prestarmos atenção em tudo vamos acabar deixando passar algumas coisas, e provavelmente deixaremos passar justo as mais importantes.
Vamos ao nosso exemplo novamente. Acordou, esticou, dentes, café e banho. Sem celular, sem distrações, presente, texturas, cheiros, cores.
Ótimo, vimos que isso não é suficiente.
Então vivemos o passado e o futuro também.
Maravilha!
E aí nos vemos pensando muito e agindo pouco.
Aquele sentimento de sei o que preciso fazer, mas não faço.
Precisamos fazer essa ponte de volta, desse mundo de ideias do passado e do futuro para essa vida aqui no presente, sem estar presente somente como um bicho que come, dorme e escuta sons para reagir ao ambiente de forma atenta.

Algumas coisas precisam ser feitas no automático. Fico lembrando de quando minha filha estava aprendendo a andar, cada passo era atento, parecia um esforço sem tamanho para mexer cada perninha.
Hoje caminhamos sem nem prestar atenção nos buracos, pedras ou elevações na rua. Vez ou outra ainda tropeçamos, mas dificilmente caímos.
Imagina estar presente e sentir a textura do chão com a sola do pé em cada passo e ficar atento a isso e aos carros passando na rua, a alguém que te chama e cumprimenta, seria cansativo e algo iria ficar para trás.
Hoje fui andando para a missa, faço isso todas as manhãs. A cidade é pequena e a igreja é próxima, menos de 8 minutos de caminhada, 5 se for andando rápido.
Eu poderia fazer isso, andar com atenção a tudo ao redor, mas prefiro fazer esse caminho rezando o terço.
Se eu estivesse atento a tudo o que acontece, ao meu pé, carros e pessoas, com certeza ia ter que deixar a oração de lado e, na minha avaliação, com os juízos que tenho da minha vida no passado e com aquilo que quero com a minha vida no futuro, a oração é mais importante que sentir a textura do chão, com toda certeza, e não quero deixar isso passar.
A nossa atenção sempre será o material para a vida do pensamento, mas ela precisa estar posta naquilo que é mais importante para nós, caso contrário, vamos estar muito atentos em algo que nos leva para um destino que não é o que queremos e não teremos material suficiente para recalcular a rota e recomeçar.
Esse recomeço atuante na nossa vida do presente e honestamente, sempre temos tempo, isso está na nossa natureza. A cada dia que começa, um novo recomeço, um novo despertar, um novo espreguiçar, com dentes, café e banho.
Mas a forma que fazemos isso, só o ser humano pode fazer.
Façamos como gente mesmo, atentos sim, mas atentos por inteiro, não só para parecer, não só preocupados com o que você pode tocar e sentir, mas integrando essa presença na presença total, estando ali por inteiros, conscientes do que estamos fazendo e deixando de fazer, verdadeiramente presentes.
Fazemos isso toda manhã, que a nossa rotina não seja algo que desejamos mudar, mas que seja a responsável a nos fazer colocar a atenção no presente que verdadeiramente importa, essa é a verdadeira presença.
Se quiser avançar nessa tomada de consciência verdadeira e agir dessa forma, com uma presença mais completa, preparei um material chamado Terapia Express. Se você chegou até aqui, já percebeu o suficiente. O problema não é falta de informação. É falta de direção sustentada. E isso não se resolve sozinho, porque, sozinho, você já tentou.
Não precisa resolver sua vida inteira agora. Mas precisa parar de viver sem um critério claro. O Terapia Express não é uma solução completa. É um primeiro passo sério.
7 dias para encontrar um eixo. 30 dias para sustentar esse eixo na realidade.
Se você fizer isso com honestidade, algo muda. Não tudo. Mas o suficiente para que a vida deixe de ser reação.
Sobre o Autor
Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.
Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.

