A Felicidade em um Café

O que é felicidade e de onde ela vem

Quase todos os dias pela manhã minha esposa me manda uma mensagem dizendo:

“Bruno, tem café”.

Saio do escritório, vou até a cozinha e despejo a garrafa dentro de uma xícara amarela grande, agradeço e volto para o escritório.

Marcela colocou naquele café o tempo dela, ela foi ao mercado comprar o café, esquentou a água, gastou o pó e o filtro, colocou em uma garrafa térmica para que permanecesse quente, se serviu e manteve a garrafa fechada, para que quando eu fosse até a cozinha encontrasse um café quentinho e pronto.

Ela teve todo o trabalho, ela empregou todo o sacrifício necessário para tirar da cabeça uma ideia de querer um café, de querer energia para começar o dia, da disposição e o alerta que o café traz, para fazer, na realidade, isso acontecer.

E ela não foi grata a ela mesma pelo ato que fez, ela simplesmente aplicou o esforço e obteve o resultado que era desejado com o café (as vezes mais prazeroso, as vezes nem tanto). Por vezes esse café fica muito gostoso, com a acidez certa, na temperatura ideal, com a doçura própria do café bem escolhido, outras vezes fica mais ácido ou forte demais pelo excesso de pó, ou pela água ter evaporado mais do que devia no processo.

De todo modo, com um resultado ou outro, ela não é grata pelo café que ela mesmo preparou. Não digo isso de forma pejorativa, como quem diz que não é agradecida pelas coisas que tem.

O que digo e gostaria de trazer a reflexão é: Ela não se agradece pelo ato de ter preparado o café. E é bem assim mesmo, está certo! Não existe dever de gratidão a si próprio. Diante dos nossos próprios atos colhemos os resultados e acatamos as consequências, é exatamente assim que a coisa funciona.

Quando começamos a pensar muito diferente disso é que nos perturba os tais pensamentos de “ter tempo para mim”, de “fazer algo que premie meu esforço” ou qualquer coisa do tipo.

Veja bem, o prêmio próprio por ter preparado o café será o café quente e pronto para ser consumido, para ter a energia que você buscava quando iniciou essa relação com o café. O café se transformou um pouco nela (ganhou a doçura, o carinho e o cuidado) e ela se transformou um pouco em café, com a acidez desperta e o calor que abraça e prepara para um novo dia.

E isso acontece com toda relação que temos, cada uma das partes se transforma um pouco um no outro diante de um amor vivido.

Escolhemos, portanto, as relações que teremos, com o que vamos nos relacionar e por quanto tempo vamos nos relacionar. Essa é a nossa realidade material do espaço-tempo.

A transformação no objeto com o qual nos relacionamos é inata da relação, ela vai acontecer, você querendo ou não, estando atento a isso ou não, desejando isso ou não, percebendo essa transformação ou não, ela está ali, presente, acontecendo diante da presença dos dois seres que estão em relação.

Essa é a estrutura da nossa realidade material.

Bom, feito esse parêntesis, conseguimos entender que nossos atos tem resultados e consequências e que o dever de gratidão a si próprio não é um elemento dessa relação.

Quem se sente grato tem consciência de que foi agraciado. Por maior que seja o esforço de compreensão ou a tentativa de interpretar de forma simbólica a relação da Marcela com o café, não haveria ali um dever de gratidão dela para o café e menos ainda do café para ela. Há uma relação de transformação.

Por outro lado, a partir do momento em que eu recebi a mensagem dizendo “Tem café”, uma outra forma de relacionamento se inicia.

Ela se transforma um pouco em mim e eu um pouco nela. Ela, por um movimento empático, vendo em mim o meu desejo por estar mais desperto, mais pronto para o dia de trabalho, por querer energia para iniciar o dia e oferecendo a mim o sacrifício que fez para preparar o café e deixar pronto para que eu tivesse para mim essa felicidade.

Do meu lado, perceba que nenhum esforço, nenhum sacrifício foi feito. Recebi esse carinho de graça.

Não era possível eu planejar isso. por mais que isso possa se repetir por diversos dias da semana, não consigo planejar essa alegria e persegui-la.

Posso apenas receber esse presente e ficar feliz com isso, um sentimento de gratidão presente pelo ato. Nem só pelo café em si, mas pela preocupação em querer meu bem, em se inclinar para o sentimento ou emoção que estava em mim naquele momento (em – para dentro; pathos – emoção = empático/empatia).

Ela antecipa nesse movimento uma transformação, pensando como eu me sentia e em como eu poderia vir a ser. Esse é um movimento muito próprio do amor.

Conseguir olhar no outro, e contemplar o que vê, atravessando o outro com o olhar e vendo o que ele pode vir a ser.

Não se trata de projetar no outro desejos e expectativas suas, mas de ver no outro o projeto de felicidade, do que faz o outro feliz e querer que ele dure com isso na eternidade.

A felicidade é a graça.
Ela vem de forma gratuita e foge de nós quando é perseguida como fim.

Vamos parar para pensar um pouco nisso: Se eu coloco todos os meus esforços para que de manhã eu receba um café quentinho o resultado, muito provavelmente, será uma grande frustração.

Se eu ficasse dando indiretas durante todo o dia, falando sobre a vontade que tinha de que um café fosse feito pela manhã, se colocasse o pó, o filtro e a água já separado na cozinha, deixasse minha caneca amarela do lado da cadeira dela na mesa e ficasse esperando a mensagem pela manhã, as chances de eu me frustrar seriam grandes.

A começar pelo fato de que todo esse esforço com o objetivo de ter o café seria muito melhor empregado se eu mesmo tivesse feito o café e deixado na jarra, pronto.

Isso seria percebido, certamente. Poderia acontecer da nossa filha acordar chorando e precisar dela e mesmo com tudo ali arrumado ela não poder fazer o café e poderia acontecer dela fazer sim, me mandar a mensagem e quando eu fosse tomar, o pó estar mais torrado, ou a aguá ter evaporado mais do que o normal, ou estar mais quente ou mais fria, sei lá, várias possibilidades de frustração poderiam ocorrer.

E eu, que esperava ter um café naquelas condições me frustraria e não reconheceria nada do que estava acontecendo ali verdadeiramente, porque minha atenção estava posta na recompensa de ter um café quente para tomar pela manhã.

Perderia o verdadeiro ato de amor que atravessa o outro com o olhar e vê no outro o que ele pode vir a ser (não o que eu simplesmente desejo que o outro seja), mas aquilo que o outro pode ser e que pode fazer com que seja verdadeiramente feliz.

Ao perseguir a felicidade, encontraria frustração, tanto pela obtenção do bem quanto pela sua falta.

A felicidade é, por essência, um presente. Por mais que a gente possa chamar o ato de comprar algo para si de “se dar um presente” o ato continua sendo o de comprar e não o de presentear.

Está no nosso íntimo, é intrínseco do ser humano querer e buscar a felicidade e isso se dá de forma totalmente livre, sem coerção interna ou externa nenhuma, é uma vontade natural.

Mas não foi o homem, por ele próprio, que tenha dado início ao anseio por essa felicidade. Simplesmente não temos escolha de querer algo diferente disso, não podemos nesse sentido falar de liberdade de escolha.

Isso parece contrariar a lógica e ser até, de certo modo, paradoxal. Isso acontece porque insistimos em pensar que tudo o que temos é reflexo dos nossos próprios méritos.

A realidade do “self made man” e o pseudo culto àqueles que construíram riquezas “do zero”. Achamos que podemos ser os construtores da nossa própria felicidade. Daí vem também todo um arcabouço de produtividade e outros critérios que não quero me estender nisso aqui hoje.

O querer passa pelo coração do homem e remete a uma origem última, que não é somente humana.

Não somos determinados pelas circunstâncias, mas também não somos completamente livres de suas consequências. Essa é a tensão real da liberdade humana.

Esse é o fundamento da nossa liberdade humana: nossa vontade quer livremente a felicidade, mas quer determinada por uma necessidade de felicidade.

Não quero deixar a coisa mais complexa. Toquei nesse ponto apenas para percebermos que essa nossa natureza revela muito mais uma realidade interna nossa de felicidade, do que as realidades externas que costumamos buscar no nosso dia a dia ao tentar satisfazer desejos imediatos do nosso corpo em uma investida para ser feliz.

Poderíamos pensar no café como elemento de satisfação do corpo, na energia que ele traz e no calor que abraça um novo dia começando e já seria até quase poético, mas ficaria apenas na casca de um pensamento.

Se deixarmos de lado e não notar que isso é uma graça que recebemos e que recebemos de graça, deixamos passar muita coisa que vai contribuir diariamente para o que chamamos e entendemos por felicidade.

Ninguém é dono da própria felicidade. É sim plenamente possível alcançar a posse de um bem criado como fruto do próprio esforço. É o café obtido após o sacrifício (ainda que pequeno) de comprar o pó, esquentar a água e coar o café.

Com inteligência, tempo, energia, dedicação e constância, conseguimos adquirir uma série de bens que nos deixarão felizes: dinheiro, uma casa grande, um casamento, livros, comidas e bebidas, carros e relógios.

É claro e inegável, mas quando falamos do vazio preenchido pela felicidade, esse só é preenchido por algo que você recebe de graça, não dá para persegui-lo.

Ele vem como uma “devoção às escuras”, como uma coisa em parte decorrente de alguns atos nossos, mas que chega como uma surpresa, como algo que não poderia ser previsto, metrificado ou calculado de alguma forma.

Não podemos nos fazer felizes a nós mesmos.

O homem, o ser humano, é, por natureza, um ser a caminho. E esse caminho fica um pouco mais claro quando percebemos o quão dependente do outro somos, inclusive para sermos felizes.

Quando percebemos o quão relacional somos e que a cada relação que temos com cada um, com cada situação ou mesmo objetos, nos transformamos um pouco naquilo e aquilo ou aquele se transforma um pouco em nós.

E dessa relação, dessa transformação e dependência, surge um sentimento de dívida de gratidão impagável, de que temos muito mais do que merecemos, porque recebemos muito, tantas e quantas vezes, de graça, muitas coisas, todos os dias.

Devemos sim receber com alegria todos esses presentes e nos esforçar, de todo coração para entregar tudo o que temos, com muita generosidade, como uma tentativa de pagar essa dívida, com a consciência de que isso não será possível e como efeito, e apenas como efeito, poder nos alegrar por perceber que a felicidade é mesmo a graça.

Se este texto fez algum sentido para você, talvez valha a pena conhecer também outros trabalhos que venho desenvolvendo.

No blog deixei reunidos alguns materiais que venho produzindo: com exercícios práticos que nasceram do mesmo esforço de compreender melhor a vida adulta e suas responsabilidades, de encontrar um eixo e buscar viver olhando para o que realmente importa.

Você pode encontrá-los aqui:

Sobre o Autor

Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.

Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.

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